
Com o início dos Jogos Olímpicos de Pequim, vamos falar daqueles que não estarão na disputa do torneio: os brasileiros. Iremos, cronologicamente, lembrar de como eles foram aparecendo na liga e, por consequência, nos dando esperança de dias melhores para a nossa seleção.
Já em 2002, a situação do Brasil no cenário do basquete internacional era preocupante, pois, já naquela época, nossa seleção parecia não ter forças para enfrentar as principais potências do mundo. Enquanto isso, nos Estados Unidos, no Draft daquele mesmo ano, o New York Knicks, com a sétima escolha, selecionou Nenê Hilário, que seria o primeiro brasileiro a jogar uma temporada completa na NBA. Aquilo foi um grande acontecimento. Para se ter idéia, Nenê foi escolhido antes do que jogadores como Amare Stoudamire, Caron Butler, Tayshaun Prince e Carlos Boozer.
Na mesma noite, a direção do Knicks decidiu negociar a sua escolha, junto com o pivô Marcus Camby, com o Denver Nuggets, em troca de Antonio McDyess. Para Nenê, era o lugar perfeito para iniciar a sua trajetória na liga: com pouca pressão nos seus ombros. Com a contusão de Camby, o brasileiro assumiu a vaga de center no quinteto inicial da equipe. Em seu primeiro ano, atuou em 80 partidas e teve médias de 10.5 pontos e 6.1 rebotes por jogo. Disputou o jogo dos novatos no All-Star Game de 2003. Era uma promessa, sem dúvidas. Certa vez, Dirk Nowitzki deu uma entrevista à ESPN Brasil e declarou que Nenê tinha tudo para se tornar uma das estrelas da liga.
Mas o Denver, que era uma equipe muito fraca, foi se fortalecendo. Com a chegada de Carmelo Anthony através do Draft de 2003, Nenê aumentou um pouco as suas médias no seu segundo ano e o Nuggets chegou aos playoffs. Logo a partir da sua terceira temporada, Nenê passou a perder parte da sua importância para a equipe. Muito se deve às contusões e à contratação de Kenyon Martin, que deixou o brasileiro no banco de reservas. Somando as últimas três temporadas, Nenê jogou apenas 81 partidas. É claro que a batalha contra o câncer durante o último ano contribui muito com o seu grande tempo afastado das quadras e, consequentemente, com o estacionamento da sua evolução como jogador dentro da liga.
Um ano após a entrada de Nenê, foi a vez de Leandrinho Barbosa ser selecionado no final do Draft de 2003. Foi escolhido pelo San Antonio Spurs, mas foi trocado com o Phoenix Suns na mesma noite. E foi no time de Arizona que o jogador construiu a sua história. A princípio, amargou a reserva de Stephon Marbury. Quase nunca entrava em quadra, até uma negociação mudar o seu destino.
A negociação envolveu o seu grande amigo e titular absoluto da equipe Stephon Marbury, que foi para o New York Knicks. Howard Eisley, que também estava envolvido na troca, seria o titular. Mas a transação ocorreu no meio da temporada. E em uma partida contra o Chicago Bulls, o então técnico do Suns Mike D'Antoni não tinha muitas opções no elenco. Ainda não podia contar com os novos reforços. Leandrinho foi escalado como titular naquele embate. Sua ótima apresentação convenceu o treinador, que deixou o veterano Eisley como opção no banco de reservas.
Com a chegada de Steve Nash, Barbosa voltou à condição de reserva. Mas como já tinha certa confiança de D'Antoni, entrava cada vez mais nas partidas. Agradava tanto a comissão técnica que foi deslocado para a posição 2, para assim não precisar entrar em quadra apenas quando Nash tivesse cansado. Cada vez mais Leandrinho foi se firmando como peça importante na rotação do Phoenix Suns. Com sua velocidade e habilidade nos arremessos de média e longa distância, adaptou-se ao estilo de jogo que D'Antoni empregava na equipe: o Run and Gun. Na temporada 2006-07, venceu o prêmio de melhor sexto homem. É um dos grandes pontuadores da sua equipe. Tornou-se peça de fundamental importância para o time, conbiçado também por algumas outras franquias.
Alex Garcia, após impressionar Gregg Popovich em uma partida contra os Estados Unidos, foi contratado pelo San Antonio Spurs em 2003. Infelizmente, sofreu muito com seguidas contusões. Não teve uma oportunidade concreta de jogar. Teve também uma passagem-relâmpago pelo New Orleans Hornets. Mas, novamente, sofreu com lesões e deixou a NBA.
Em 2004, pela primeira vez na história, dois brasileiros tiveram seus nomes chamados na noite do Draft. O Toronto Raptors, com a oitava escolha, selecionou Rafael "Baby" Araújo, pivô que vinha de BYU. E Anderson Varejão foi recrutado pelo Orlando Magic no início do segundo round, mas foi negociado com o Cleveland Cavaliers. Ao fim daquela noite, muitos brasileiros que acompanhavam a cerimônia imaginavam como seria o futuro quinteto titular da seleção brasileira, já que haviam cinco representantes no melhor basquete do mundo. O futuro nunca pareceu tão promissor. De fato, a situação toda permitia com que tivéssemos esse tipo de pensamento.
Mas a trajetória de Baby foi apagadíssima. Em duas temporadas com o time canadense, não era nem de longe um titular absoluto, muito pelo contrário: atuava cerca de 15 minutos por jogo apenas, com médias que não ultrapassavam os 3.3 pontos e 3.1 rebotes por partida. Foi para o Utah Jazz e, mesmo nas mãos de Jerry Sloan, não conseguiu desenvolver o seu jogo. Após três temporadas, Baby se despedia da NBA e entrava para a história como uma daquelas péssimas escolhas de primeiro round nos Drafts.
Já Varejão teve uma história semelhante à de Leandrinho. Começou sem muito espaço no Cavaliers, mas foi agarrando as oportunidades que apareciam. Sua garra fora do comum e a grande aptidão defensiva fizeram com que Anderson caísse nas graças não só de seu técnico, mas também de sua torcida. Com exceção de Lebron James, Varejão é o jogador que mais vende camisas da sua equipe. Na Quicken Loans Arena, ginásio dos Cavaliers, a torcida compra perucas do Wild Thing - apelido que ganhou nos EUA - para assistir os jogos. Está bem longe de ser um dos grandes craques da NBA, mas é um jogador importante na rotação da sua equipe, muito útil defensivamente e um bom reboteiro. Quando requisitado, corresponde à altura do que se espera dele.
Marcus Vinícius também já esteve na NBA, mas sua trajetória se assemelha a de Rafael Araújo. Com pouco espaço, não deixou saudades no New Orleans Hornets, onde jogou 27 partidas ao longo de duas temporadas. Nesse ano, logo que chegou ao Memphis Grizzlies através de uma troca, foi dispensado. Não voltou mais à atuar na liga depois disso.
Ao longo dos últimos seis anos, colecionamos alguns sonhos, especialmente quando vimos alguns de nossos jogadores entrarem na melhor liga de basquete do mundo - isso sem falar naqueles que eram contratados por equipes européias. Especialmente quando Varejão e Baby entraram na liga, ao mesmo tempo em que Leandrinho ganhava destaque e Nenê era tido como uma grande promessa, muitos esperavam ansiosamente por um futuro esperançoso do nosso basquete. Entretanto, o progresso parou por aí. A Confederação Brasileira continuou a fazer o que sempre fez: nada. E alguns daqueles que estavam na NBA acabaram deixando a liga por deficiência.
Seis brasileiros estiveram na liga, mas hoje restam apenas três: Nenê, Leandrinho e Varejão. O primeiro, mesmo com um início de carreira muito promissor, ainda procura se firmar e voltar à evolução que vinha apresentando nos primeiros anos de carreira. E, após ter vencido a batalha pela vida no ano passado, terá condições de retomar seu caminho. Já os outros dois conquistaram seus espaços e dificilmente serão mais do que são hoje: bons reservas.
Em uma comparação com os argentinos, relacionamos o sucesso de seus atletas na NBA com o sucesso da seleção. A Argentina é a atual campeã olímpica e uma das poucas seleções no mundo capaz de enfrentar os americanos e os fazer com que eles se sintam ameaçados. Andrés Nocioni, Fabricio Oberto e Luis Scola chegaram na NBA e se estabeleceram em suas equipes. Walter Herrmann, mesmo com pouco tempo de quadra devido à grande concorrência no Detroit Pistons, assinou um novo contrato com a equipe. Carlos Delfino nunca foi um jogador que chamasse a atenção dentro da NBA, mas tanto no Pistons como no Toronto Raptors, tinha lá o seu papel vindo do banco de reservas e o desempenhava muito bem. Entretanto, com proposta financeiramente melhor, foi para a Europa. Por fim, Manu Ginóbili é gênio. Sua nacionalidade é como se fosse um detalhe perto do seu brilhantismo: não é um argentino dentro da NBA, é um grande jogador que nasceu na Argentina.
Talvez a ausência de um jogador decisivo, algo como Manu é para a Argentina, possa explicar alguns fracassos brasileiros. Ou então o número inferior de jogadores bem estabelecidos possa explicar parte da nossa inferioridade. Jonathan Tavernari, possivelmente, será mais um futuro representante do nosso basquete na NBA. Mas não é certo, não é lógico e não é justo colocarmos todas as nossas fichas nele. O que nós precisamos não é de um jogador como ele, e sim de mais jogadores como ele. Necessitamos de mais qualidade e, ao mesmo tempo, de mais quantidade.
Como se não bastasse tanta diferença entre a recente história de sucesso do basquete argentino com a do brasileiro, existe uma que, no momento, é a maior de todas. Ginóbili, Nocioni, Oberto, Scola e Herrmann também estão na NBA. Mas nenhum deles nunca se recusou a representar o seu país.